Quando a mente está turva

 Há dias em que a mente não avança.

Não porque falte força, nem porque falte vontade — simplesmente porque tudo dentro de nós parece coberto por uma névoa fina, persistente, que embacia cada pensamento.

Nesses momentos, não adianta empurrar. A mente turva não se abre à força, tal como a água agitada não fica clara por ordem. Quanto mais tentamos “pensar melhor”, mais denso fica o nevoeiro.

Com o tempo, aprendi que a turvação não é um erro. É um estado. Um clima interno. Tal como o céu não é menos céu quando está nublado, também nós não somos menos nós quando não conseguimos ver com nitidez.

A mente turva pede outra coisa: pede pausa, pede suavidade, pede que deixemos de lutar contra ela.

Às vezes basta um gesto simples — levantar os olhos do ecrã, sentir o ar a entrar, ouvir o som mais distante da rua. Outras vezes é preciso caminhar um pouco, deixar o corpo mover o que a cabeça não consegue organizar.

E há dias em que não há clareza nenhuma. E está tudo bem.

Porque a névoa não veio para nos bloquear. Veio para nos abrandar. Veio para nos lembrar que não somos máquinas de lucidez constante, e que até a confusão tem o seu lugar no processo de viver.

A mente turva não é o fim do caminho. É apenas o momento antes de vermos melhor.


Francisco

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